Como se preparar para o Burning Man em um único dia

Eu já conhecia o Burning Man havia tempo. Por vários anos seguidos participei dos side events: nosso camp construía uma sauna de arte no deserto. Mas, naquele ano, eu não pretendia ir a lugar nenhum: morávamos, minha esposa, nosso filho recém-nascido e eu, numa casa aconchegante perto de Buenos Aires, tocávamos o negócio, curtíamos uma vida tranquila.
E, de repente, uma mensagem no grupo dos amigos: alguém está vendendo ingressos para o Burning Man de depois de amanhã. Olho para a tela, entendo que uma chance dessas pode não aparecer de novo e, claro, compro três passagens de avião para aquela mesma noite.
Quêêê? A gente decola daqui a 4 horas? — perguntou minha esposa.
Aliás, essa não era a nossa primeira viagem espontânea, e ela topou na hora. Fizemos uma malinha cada um, enfiamos ali dentro as nossas fantasias burner favoritas (você sempre tem que saber onde está a sua fantasia burner) e saímos para o aeroporto. A Buenos Aires noturna passava voando pelas janelas, disparávamos de táxi, pegamos o voo por um triz, atravessamos os controles correndo, desabamos nas poltronas do avião e foi aí que eu soltei um suspiro de espanto: a gente está mesmo indo para o Burning Man.
No avião, abri a lista que um amigo tinha mandado, aquela lendária «lista de coisas que você tem obrigatoriamente que levar». Tinha uns cem itens, alguns bem estranhos. Gotas para o nariz. Máscaras contra poeira. Bicicleta. Eu ia rolando a lista e percebendo: nenhuma dessas coisas estava, claro, na minha mala. E já era tarde demais para mudar qualquer coisa.
Aterrissamos. Alugamos um jipe, tomamos um café perto da ponte de San Francisco e fomos direto para o Walmart.
Depois de uma hora, bateu a fome. Depois de duas — a vontade de me divorciar. Depois de três, ligaram do deserto: «Dá para você trazer, numa boa, mais umas vinte magrelas para o camp?» Depois de cinco horas, meu filho teve febre, e ficou claro que hoje eu chegaria ao deserto sozinho.
A muito custo, enfiamos tudo no carro. Paramos no estacionamento de um McDonald's para abrir as caixas e jogar fora o excesso de embalagem — no deserto não tem lixeira. Deixei minha esposa e meu filho no hotel e, à meia-noite em ponto, cruzei o gate. Foi a partir dali que começou a aventura que eu jamais vou esquecer.
E agora, algumas dicas para quem quiser repetir essa loucura, só que fazendo do jeito certo. Um Burning Man espontâneo se prepara de um jeito completamente diferente. Você vai precisar de:
– um assistente remoto
– um amigo em San Francisco
O plano, passo a passo:
1. Você compra a passagem de avião.
2. O assistente pede todos os cem itens da lista no Amazon Prime para o endereço do amigo.
3. Você chega na América e as coisas já estão te esperando na garagem. Faz as malas em umas duas horas e, rumo ao deserto. Pronto, você é magnífico
A gente se vê na playa este ano?
P.S. Até hoje, bicicleta em supermercado me dá um tique no olho. E sim, foi em 2023, justamente o ano em que, dois dias depois da minha chegada, o deserto inteiro alagou. Mas isso já é uma outra história.