Um milionário gasta US$ 2 milhões por ano para voltar a ter dezoito anos. O corpo dele tinha outros planos.

18 de julho de 20265 min
Um milionário gasta US$ 2 milhões por ano para voltar a ter dezoito anos. O corpo dele tinha outros planos.

Em algum lugar da Califórnia vive um homem de 48 anos que vai para a cama pontualmente às 20:30 toda noite. Não às 20:34. Não "quando o episódio terminar". Às 20:30, sem exceções. Ele se chama Bryan Johnson, enriqueceu com software de pagamentos (criou a Braintree — a empresa por trás do Venmo — e a vendeu para o PayPal por 800 milhões de dólares) e concluiu que a morte é, no fundo, uma ofensa pessoal contra a qual está disposto a brigar.

A arma dele é um projeto chamado Blueprint. Cerca de 2 milhões de dólares por ano, uma equipe de uns 30 médicos e especialistas e, em certo momento, 111 comprimidos por dia. Não é erro de digitação. Cento e onze. De lá para cá ele cortou para uns 30 — provavelmente porque até a vida eterna tem um limite de capacidade de engolir.

O objetivo todo, nas palavras dele, é devolver os órgãos ao estado de alguém de 18 anos. O que, convenhamos, é uma e tanto de meta — considerando que a maioria dos jovens de 18 anos de verdade funciona à base de energético e quatro horas de sono.

A parte em que aparentemente funciona

Por um tempo os números pareciam impressionantes — se você não lesse as letras miúdas. Um coração de 37 anos. A pele de uma pessoa de 28. A velocidade de envelhecimento mais lenta do planeta. Ele adora dizer que desacelerou o próprio envelhecimento em 31 por cento, e os compartilhamentos virais já mutaram isso para 24 — porque a internet é incapaz de copiar um único número sem errar.

Pequeno problema. Quase tudo isso vem do próprio Johnson, com base em testes conduzidos pela própria equipe dele, com uma classificação num ranking em cujo topo está sentado ele mesmo. Um dos seus primeiros médicos chegou a admitir que não alcançaram nada de extraordinário. E um pesquisador de Yale observou com delicadeza que o tal teste de velocidade de envelhecimento de que ele tanto gosta nem sequer pode ser convertido naquele percentual bonitinho que ele vive citando. Detalhe.

A parte em que a natureza entrou em cena

É aqui que o experimento realmente justifica o orçamento.

Primeiro foi o rosto. Johnson queria recuperar volume depois que a dieta radical o deixou esquálido. Ele já havia queimado tanta gordura própria que não sobrava mais nada para retirar — então usou gordura de doador. Em cerca de meia hora o rosto começou a inchar. Depois piorou. Depois piorou mais ainda — até ele literalmente parar de enxergar, porque os olhos incharam e fecharam. Ele ligou para um jornalista com quem justamente ia se encontrar e perguntou se por acaso ele conhecia algum procedimento que salvasse vidas — um detalhe sensacional para se entregar de bandeja a um repórter.

As versões dramáticas que circulam na internet dizem que a recuperação levou semanas de tratamento intensivo. Na prática, tudo se resolveu sozinho em sete dias, e ele já voltou a planejar a próxima tentativa. O sujeito tem um otimismo inabalável e uma gestão de risco genuinamente catastrófica.

Depois veio a fase do sangue. Johnson montou uma troca de plasma entre três gerações. O filho de 17 anos, Talmage, doou plasma para ele, e ele doou o seu para o pai de 70 anos, Richard. Três gerações de Johnsons ligados a tubos numa clínica do Texas, como o retrato de família mais estranho do mundo. O resultado, que ele mesmo anunciou no Twitter e não em algum solene congresso médico: nenhum efeito detectado. As trocas de sangue em família ele encerrou discretamente.

E então, a reviravolta. Em junho deste ano, o homem que tenta virar biologicamente alguém de dezoito anos anunciou que está com gastrite autoimune — uma condição incurável em que o sistema imunológico decide que a mucosa do estômago é inimiga. Os médicos dizem que não tem nada a ver com a dieta. É só o universo lembrando ao sujeito que monitora mais de cem biomarcadores que o cassino continua sendo dele.

O que de fato aconteceu

A versão honesta é menos dramática do que os memes gostariam. Johnson não desistiu nem admitiu que o envelhecimento é imbatível. Pelo contrário — ele está dobrando a aposta. Novo CEO, cerca de 60 milhões de dólares captados e o programa Immortals, de um milhão de dólares por ano, que juntou 1500 inscrições em 30 horas. O que de fato mudou foi o protocolo, que ele ajustou. Menos comprimidos, cortou a rapamicina, passou a comer um pouco mais para o rosto parar de lembrar um documentário sobre a fome.

E se você viu por aí aquela versão em que ele supostamente teria descoberto que o verdadeiro segredo da juventude está em com quem ele se casou — é só a internet no seu melhor: aparafusa um trocadilho numa história real até sobrarem uns 30 por cento de fato e 70 de fanfic. Para constar: essa parte é pura invenção.

Então não — 2 milhões por ano não vão comprar de volta os seus rins de dezoito anos. Mas vão comprar o melhor diagnóstico da face da Terra, que vai te contar em detalhes luxuosos como exatamente o corpo de um homem rico envelhece assim mesmo. Pontualmente, uma surpresa autoimune de cada vez.

O cassino sempre ganha. Só que agora ele manda uma conta bem detalhada.