A IA devorou os juniores. A faculdade continua cobrando

21 de julho de 202610 min
A IA devorou os juniores. A faculdade continua cobrando

A carreira sempre funcionou como uma escada. O primeiro degrau: o estágio, a vaga júnior, um ano buscando coisas e olhando como os mais velhos fazem. Você fica ali uns dois anos, ganha pouco, mas aprende. Depois sobe.

Pois é, esse primeiro degrau acabou de ser serrado fora. E a faculdade continua vendendo passagem de quatro anos até o topo, cobrando preço de classe executiva.

O número que me fez sentar e escrever

O Digital Economy Lab de Stanford (o laboratório do Erik Brynjolfsson) pegou dados da ADP, a maior processadora de folha de pagamento dos Estados Unidos. Milhões de pessoas reais, não pesquisas de opinião. O resultado: entre trabalhadores de 22 a 25 anos nas profissões mais expostas à IA, o emprego caiu 16% em relação aos colegas mais velhos nas mesmas empresas. Os experientes seguiram estáveis. Quem despencou foram os jovens.

Entre desenvolvedores jovens a queda até setembro de 2025 foi de quase 20% desde o pico do fim de 2022.

E aqui está o detalhe que importa. Isso não é uma história sobre a IA matar o trabalho. É uma história sobre a IA matar a entrada no trabalho. Essa diferença muda tudo.

Como é um degrau serrado fora

Os dados formam uma única imagem, e ela é desconfortavelmente coerente.

  • A contratação de recém-formados nas grandes techs caiu cerca de 65% em relação a 2019, e nas startups em estágio inicial 76% (SignalFire, 2026).
  • Formados nos 20 melhores programas de computer science dos Estados Unidos têm 45% menos chance de conseguir uma vaga de engenharia numa grande tech do que alguns anos atrás. Até o sinal de elite parou de funcionar.
  • De maio de 2025 a maio de 2026 as vagas de nível sênior cresceram 14,7%, enquanto as de nível inicial caíram 7,5% (Indeed Hiring Lab).
  • Em desenvolvimento de software apenas 4,5% das vagas são de nível inicial. Para comparar, em cuidados pessoais são 91,3%.
  • As Big Four estão cortando a entrada de formandos: Deloitte menos 18%, EY menos 11%, KPMG saiu de 1.399 pessoas para 942.
  • O desemprego entre recém-formados no ensino superior é de 5,6% contra 4,2% no país inteiro (NY Fed). Historicamente era o contrário.

O mecanismo aparece nos dados das próprias empresas de IA

É isso que encerra para mim a dúvida se é mesmo coisa da IA. A Anthropic publica um Economic Index, um relatório sobre no que as empresas realmente gastam os modelos. 77% do uso corporativo é automação, incluindo entregar a tarefa inteira. E só 12% é colaboração, quando pessoa e modelo fazem algo juntos.

Agora pense no que é o trabalho de um júnior. Exatamente as tarefas que se entregam por inteiro: montar o resumo, escrever o código repetitivo, fechar a planilha, revisar os documentos. Nenhuma empresa decidiu demitir os jovens. Ela decidiu que esse trabalho agora quem faz é um modelo. E os jovens só estavam sentados em cima dele.

A ironia é que aquilo não era só trabalho. Era o mecanismo de aprendizagem. Não automatizamos uma tarefa. Automatizamos o campo de treino.

Agora a conta da faculdade

Se a entrada está quebrando, a pergunta de verdade passa a ser quanto custam quatro anos de preparação para essa entrada.

Os americanos devem US$ 1,863 trilhão em crédito estudantil. São 42,6 milhões de devedores, com média de US$ 40.467 cada. O custo da faculdade subiu 169% entre 1980 e 2019, enquanto a renda de trabalhadores de 22 a 27 anos subiu apenas 19%. Pagar um ano de universidade pública ganhando salário mínimo exige hoje 1.345 horas de trabalho, contra 387 horas em 1980.

E o mais importante, o que você leva em troca. 52% dos formados em cursos de quatro anos estão, um ano depois do diploma, em vagas que não exigem diploma nenhum. Dez anos depois, 45% seguem abaixo do próprio nível. E aqui vai o número que me dá calafrio: entre quem começa abaixo do nível, 73% continuam presos ali uma década depois (Strada e Burning Glass Institute).

Ou seja, o primeiro emprego define a trajetória mais do que o diploma. E o primeiro emprego foi exatamente o que serraram fora.

Depois vem a economia do diploma em si. O prêmio salarial do ensino superior subiu de 39% em 1980 para 79% em 2000 e desde então está parado, e um pouco abaixo em algumas medições (Minneapolis Fed). O motivo é simples: a oferta ultrapassou a demanda. A fatia da força de trabalho com bacharelado foi de 31% para 45%, enquanto as vagas que exigem diploma por vaga que não exige caíram de 1,2 em 2010 para 0,6 em 2020 (Cleveland Fed).

E a cereja do bolo. Pelas contas da FREOPP, 31% dos estudantes americanos estão matriculados em programas com retorno financeiro zero ou negativo. Em 23% dos cursos de bacharelado o retorno é negativo. Ou seja, o formando médio termina mais pobre do que se nunca tivesse ido.

Mas eu não vou dizer para você largar a faculdade. E explico por quê

Seria desonesto vender uma conclusão bonitinha. Os dados dizem o contrário também.

O desemprego entre todos os diplomados de 22 a 65 anos é de 3,1%, entre recém-formados é 5,6%, e entre jovens sem diploma é 7,8%. Ou seja, o problema não é a educação, é a experiência. O diploma ainda é melhor do que a falta dele: renda mediana de US$ 1.543 por semana contra US$ 930 de quem só terminou o ensino médio.

E a história de que as corporações estão derrubando a exigência de diploma é em boa parte teatro. Harvard Business School e Burning Glass auditaram 11.300 posições. Depois de todos os anúncios barulhentos, quem realmente se beneficiou foi menos de uma contratação em 700. Cerca de 97 mil pessoas em 77 milhões de contratações por ano. Press releases não faltam, prática quase não existe.

E o contra-argumento que eu não vou esconder. O prometido apocalipse dos empregos não chegou. O desemprego nos Estados Unidos segue por volta de 4,2%. Uma pesquisa do Dallas Fed mostrou que a IA ao mesmo tempo reduz a contratação de juniores e aumenta os salários dos experientes nas mesmas profissões. Apocalipse não tem. Tem redistribuição, e ela bate na porta de entrada.

Profissões que não existiam quando você fez a inscrição

Agora a parte boa. O degrau não sumiu. Ele mudou de lugar, e quase ninguém mostra para onde.

Gerente de agentes de IA. A Harvard Business Review definiu formalmente o cargo em fevereiro de 2026. Uma das primeiras pessoas do mundo com esse título, Zach Stauber, da Salesforce, descreve o dia dele de forma simples: começa e termina em dashboards, scorecards e monitoramento de agentes. Ele não escreve código. Ele comanda uma frota.

AI Orchestration Specialist. A remuneração média nos Estados Unidos é de US$ 148.233 por ano, e o topo da faixa passa de 450 mil. O que se exige não é programação, e sim conhecimento de domínio. Você precisa entender um processo bem o bastante para decompô-lo em agentes.

Forward Deployed Engineer. O engenheiro que mora dentro do cliente e dobra o sistema à realidade dele. Mediana de US$ 211 mil na Palantir, acima de US$ 785 mil para sêniores na OpenAI e na Anthropic.

AI Governance e ética. A demanda cresceu 150% em um ano, a de ética 125%. Mediana em torno de US$ 150 mil, C-level a partir de 300 mil. O motor é claro: regulação e o EU AI Act. E 98,5% das organizações admitem que não têm gente suficiente para isso.

Data Annotator. A quarta profissão que mais cresce na lista da LinkedIn para 2026. A profissão se partiu em duas: a rotulagem em massa perdeu valor, enquanto a anotação especializada virou escassa. É quando um médico, um advogado ou um trader ensina o próprio domínio para um modelo.

E o mais subestimado de todos: o mundo físico. Datacenter Technician está em 17º nessa mesma lista da LinkedIn, e Commissioning Manager de data centers em 11º. Operador de teleoperação de robôs ganha US$ 28,24 por hora, e a Figure AI paga de US$ 35 a 40 para operadores de humanoides. A Siemens se comprometeu a formar 200 mil eletricistas até 2030. O boom da IA também é concreto, energia e refrigeração, e ali o que falta são mãos, não diplomas.

Tudo isso tem um denominador comum. O prêmio salarial por competências em IA sobre uma vaga comparável saltou de 25% para 56% em um único ano (PwC). Quatro das cinco profissões que mais crescem nos Estados Unidos em 2026 têm a ver com IA.

O que eu faria se tivesse dezoito anos agora

Não sou educador. Sou investidor e fundador, então olho para isso como alocação de capital com horizonte e perfil de risco.

Um. Pararia de comprar o diploma como garantia. Como opção sobre rede de contatos, acesso e profissões regulamentadas tipo medicina, direito e engenharia, ele funciona. Como promessa de emprego, não mais.

Dois. Correria atrás do primeiro emprego de verdade, não do diploma. Aqui os dados são diretos: um estágio corta em 49% o risco de acabar abaixo do seu nível. Se o seu curso não te coloca em trabalho real até o terceiro ano, ele está te vendendo um produto vencido.

Três. Calcularia o retorno de um curso específico, não do ensino superior em geral. A dispersão é enorme. Criminologia bate 65,8% de subemprego, engenharia fica numa fração disso. Ensino superior não é um ativo. É um índice, e um terço das posições dele dá prejuízo.

Quatro. Construiria prova pública de trabalho. Um currículo diz que confiaram em você. Um portfólio, um repositório, um produto lançado, um blog dizem que você sabe fazer. Quando as vagas de entrada são poucas, a empresa fica com quem já tem a prova pronta.

Cinco. Miraria onde a IA complementa em vez de substituir. Stanford mostrou isso com todas as letras: o emprego cai onde a IA automatiza e sobe onde ela complementa. Aí está o seu mapa para a próxima década.

E sim, a Thiel Fellowship, que paga US$ 250 mil para você largar a faculdade, quadruplicou a bolsa desde o lançamento. Dos ex-bolsistas dela saíram Anthropic, Figma, Ethereum e Scale AI. Não é receita para todo mundo. Mas é um sinal muito barulhento sobre para onde o preço se moveu.

Conclusão

Quatro anos e uma quantia de seis dígitos para se preparar ao primeiro degrau faziam sentido enquanto esse degrau existia. Ele foi automatizado primeiro, porque consistia exatamente nas tarefas que um modelo hoje faz de ponta a ponta.

Isso não quer dizer que não se deve estudar. Quer dizer outra coisa: pare de pagar pelo sinal e comece a pagar pela capacidade. Antes o diploma era a prova de que você conseguia. Agora a prova é o que você já construiu.

Ninguém tirou a escada. Só serraram fora os degraus de baixo. Agora se pula nela, não se entra caminhando.