Minsk, como um interrogatório sob pressão

18 de junho de 20253 min
Minsk, como um interrogatório sob pressão

Como Minsk me sugou

Minsk me sugou como o redemoinho de uma privada velha: de repente, com frieza e sem a menor chance de emergir sem deixar resíduo. Fui para lá vindo da Lituânia — do aconchego e do silêncio de uma vila à beira-mar direto para a capital, onde as mulheres são bonitas como crimes de Estado e o clima é duvidoso como um interrogatório educado.

O guarda de fronteira que sabia de alguma coisa

Na fronteira, veio até mim um guarda com uma cara de quem tem certeza de que fui eu, pessoalmente, que toquei fogo na garagem dele. Perguntou por que eu ia. Respondi com toda a sinceridade: para conhecer. Ele, com toda a sinceridade, não acreditou. Examinou o passaporte, me encarou como quem tenta lembrar se não fui eu que o magoei na infância. Me liberou. Sem sorrir. Pelo visto, desistiu.

A cidade onde “saída para a cidade” soa como uma sentença

Em Minsk, desci na estação e na mesma hora senti que ali tudo é levado a sério. Até as placas de “saída para a cidade” soam como uma sentença. A cidade é limpa, alinhada, meio cenográfica. Como se tudo tivesse sido construído anteontem, mas com materiais de 1983.

Guerra, marmelada e uma mulher com um osso no lugar dos sentimentos

Aluguei um apartamento num prédio cuja entrada cheirava a guerra e a marmelada. A dona era uma mulher com um osso no lugar das emoções. Me mostrou como ligar a televisão e saiu com uma expressão de “você não fica muito por aqui”. Servi um chá, sentei no parapeito da janela e fiquei observando Minsk através do vidro, como um zoológico em que os bichos também te observam. No fundo, nenhum de nós fica muito por aqui, se parar para pensar.

Um museu do otimismo do pós-guerra

Andei pela cidade como quem percorre um museu do otimismo do pós-guerra. Tudo monumental, de um jeito que te faz sentir pequeno e culpado. As pessoas são contidas — não exatamente carrancudas, mas como se soubessem sempre onde você esteve na noite anterior. Comprei um gorro com a inscrição “Belarus”, um lembrete de que o calor é um luxo e de que as piadas é melhor guardar bem lá no fundo.

Draniki, amor e desconfiança

Entrei num café que serve draniki do tamanho de uma torradeira. Pela garçonete senti na hora um misto de amor, de medo, ou talvez os dois ao mesmo tempo. Ela me olhava como se desconfiasse que eu fosse um agente, mas mesmo assim trouxe o creme azedo. Ganhou o meu respeito.

Independência e Abibas

Na avenida da Independência quase virei patriota. Deu vontade de endireitar as costas, dizer “Sim, batka!” e seguir em frente. No metrô, cruzei com um cara de jaqueta Abibas e olhos de quem, do nada, ouviu a pergunta “por que você vive?”. Eu o entendi. Viajamos calados até a praça Lênin. Ele desceu. Eu fiquei. Dali em diante — como um romance sem final.

Minsk, como uma ex

Na volta para Vilnius, passei um bom tempo olhando pela janela. Minsk ia ficando para trás devagar, como uma ex a quem você ainda deve alguma coisa.

E na cabeça ficava girando um único pensamento:
— Ninguém sai de Minsk o mesmo. Alguns nem chegam a sair.