Como um cartão de visita mudou minha carreira

23 de junho de 20252 min
Como um cartão de visita mudou minha carreira

Um café e um outono melancólico

Final dos anos 90. Outono. Estou sentado num café qualquer, meio melancólico, de cadeiras de plástico; pedi um americano e um sirnik, porque não sobrou mais dinheiro, mas café eu preciso.

Era uma época em que tudo parecia travado: nenhum plano claro, o trabalho me irritava, a cidade me sufocava e, no geral, aquela sensação de estar preso em algum ponto entre o “ainda sou jovem” e o “por que até agora nada deu certo?”.

Os vizinhos de mesa, uma startup e um cartão de visita

No canto ao lado, uma turma barulhenta. Um dos caras tira um notebook(!) e mostra alguma coisa para os outros. De ouvido, capto: startup, umas demos, pitches, investidores-anjo — palavras que, na época, soavam quase como nave espacial, porque eu não era desse mundo. Eu vinha de um mundo em que uma apresentação de PowerPoint levava 20 minutos para carregar e a palavra projeto quase sempre significava mais uma ideia que o chefe tinha inventado.

Alguns minutos depois, eles se levantam e vão embora. Mas um deles esquece o cartão de visita em cima da mesa.

Um e-mail no “vai que”

Fico paralisado por um segundo. Depois pego o cartão. Depois fico mais uns 15 minutos ali, só girando ele entre os dedos.
E então escrevo um e-mail:

Oi. Escutei a conversa de vocês. Sei fazer isto, consigo aquilo, me interessa aquilo outro. Se por acaso precisarem de alguém — estou livre.
E aperto “enviar”.

Não era um currículo. Era um trampolim.
Daqueles que começam com um “vai que dá”.

Quando tudo tomou outro rumo

Três dias depois, me responderam.
Uma semana depois, eu estava sentado com eles num escritório novo, discutindo marketing e montando apresentações que não travavam mais.
Mais uma semana e, pela primeira vez na vida, recebi dinheiro não por horas, mas por resultado.

Desde então, penso muitas vezes naquele café. No cartão de visita. Em como tudo teria tomado outro rumo se eu simplesmente tivesse terminado o café e ido para casa.

Às vezes o destino te joga uma chance na forma de um cartão de visita esquecido.
Mas, na maioria das vezes, é você mesmo que precisa dizer a si próprio:
Por que diabos não?
E pular.