O que eu entendi sobre a Suíça: o país das vacas, do queijo e da ordem eterna
A Suíça — o país onde até as vacas passaram por entrevista de emprego
A Suíça sempre me remeteu à palavra neutralidade. Na infância eu tinha certeza de que era um tipo especial de arma, tipo um míssil, só que muito bem-educado. Um míssil que não voa para lugar nenhum, não bombardeia ninguém, só fica ali deitado, olhando para os Alpes e deixando claro com toda a sua postura: tô com preguiça, mas se precisar — eu consigo.
— A Suíça não guerreia
Eu insistia:
— Com ninguém mesmo? Nem com os alemães?
— Nem com os alemães
Depois disso a Suíça foi automaticamente para a categoria das criaturas míticas. Em algum ponto entre o yeti e uma administradora de condomínio justa. Os memes de Idade Média sofredora ainda não tinham sido inventados.
Quando você chega à Suíça, parece que está tudo desenhado
Quando cheguei à Suíça, passei um bom tempo sem acreditar no que via. As montanhas estão dispostas como se tivessem sido posicionadas por alguém com formação em engenharia e um leve TOC. Já os lagos são imóveis feito balas de plástico. Até as vacas andam com um tal decoro que parece que acabaram de passar numa entrevista para chefe de contabilidade.
E um silêncio de verdade, denso como uma manta cara. Num vilarejo qualquer eu espirrei alto num posto de gasolina e pedi desculpa na hora. Para as casas, as montanhas e um suíço interior que na mesma hora se instalou dentro de mim.
Os trens são como relógios. Ou como vacas
Os trens andam no horário. Você olha para o relógio suíço (o mais preciso do mundo) e o trem já está onde deveria estar. Nem antes, nem depois. Na Rússia o trem é um filósofo, medita sobre o destino. Na Itália — uma mocinha atrapalhada e imprevisível. Na Suíça — um contador. Ou será que é uma vaca, afinal?
Limpeza, coleta seletiva e uma cortesia cósmica
Nesta viagem me hospedei numa cidadezinha onde as ruas são tão limpas que dá vontade de primeiro lavar os sapatos, depois a cabeça, e só então sair andando. O lixo é separado como se a vida após a morte dependesse disso. Um saco com o plástico errado é quase uma confissão de espionagem. Peço desde já perdão por todos os meus pecados.
Os suíços falam baixo. Até as crianças. Os cachorros latem com moderação, como se cada decibel a mais tivesse de ser pago. Se um suíço grita, é porque aconteceu algo terrível, por exemplo alguém atravessou a rua fora da faixa. O mundo ainda pode ser salvo, mas o tempo é curto.
O queijo como filosofia
A comida é simples e direta. Fondue, batata com queijo, queijo com batata, queijo com queijo. Em certo momento você começa a desconfiar de que a batata é só o prato onde se serve o queijo. Na infância eu achava que os suíços primeiro faziam o queijo e depois furavam buracos nele. De que outro jeito eles sairiam tão certinhos?
Bancos que inspiram mais confiança do que gente
Os bancos parecem mais sólidos do que certos casamentos. Dá vontade de entrar e dizer:
— Guardem a minha ansiedade para mim.
Eles provavelmente aceitariam. Mediante juros.
Por que ninguém ataca a Suíça
Dizem que, na guerra, a Suíça estava cercada de inimigos. Agora eu entendo por que ninguém se meteu. Imagine: você ataca, e vem ao seu encontro um sujeito que olha calmamente e diz:
— Com licença, está na hora do nosso almoço. Quer entrar?
E você meio que se perde. E aí você está comendo fondue, conversando sobre o tempo — e já fica constrangedor atirar.
Se o paraíso existe, ele se parece com ordem
Se o paraíso existe, ele não tem cara de festa, e sim de ordem. Você acorda, sabe onde estão as suas coisas, onde é o seu trabalho, onde ficam as montanhas e onde fica o lago. Onde está a sua vaca e o seu queijo. Nada aperta, nada berra. E até a eternidade, aqui, provavelmente vai chegar no horário.